Follow by Email

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A importância da família na construção do Espaço escolar





O que a interação com as famílias tem a ver com a qualidade de
ensino-aprendizagem?
Recuperando a ideia de que a relação escola-família começa pelo tratamento que é dado
aos alunos em sala de aula, vemos que as iniciativas de interação podem ter conexão direta
com as práticas pedagógicas propriamente ditas.
Independentemente da estratégia de aproximação das escolas dos contextos familiares
dos alunos, é importante que ela seja pensada para incidir diretamente no conhecimento
que a escola tem sobre as condições de apoio educacional que cada aluno tem na dinâmica
do seu grupo familiar.
Ao conhecer as condições reais das famílias – simbólicas e materiais –, as escolas
conseguem delimitar melhor o seu espaço de responsabilidade específica e planejar de
forma mais concreta os apoios necessários para o grupo de alunos cujas famílias não têm
condições (mesmo que temporariamente) de se envolver na escolaridade dos filhos.
Além disso, quando os alunos percebem que seus professores os conhecem, sabem
com quem moram, em que situação vivem, sentem-se mais seguros para expressar seus
medos e dúvidas na sala de aula. Esse conhecimento pode vir por meio de visita domiciliar,
realizada pelo próprio professor ou outro agente educacional, por informações organizadas.

Muitos professores ouvidos nesse estudo afirmam que, ao verem com mais nitidez a
realidade de alunos, modificavam sua interpretação sobre seu comportamento em sala de
aula, deixando de lado a expectativa de aluno ideal e abraçando o aluno real. Vários
exemplos apareceram nos municípios visitados. Em um deles, uma professora relatou que
tinha dificuldades para lidar com um aluno que atrapalhava o ritmo dos colegas: ficava
sempre brincando, circulando pela sala, e não se concentrava nos seus afazeres. Quando
conversou com sua mãe, se deu conta de que ele tinha uma série de atribuições domésticas
e era responsável, na ausência dos adultos, pelos irmãos mais novos. Assim, o único espaço
que ele tinha para relaxar e ser criança era a escola. Numa outra história, a professora de
educação física contou que não conseguia envolver vários de seus alunos nas atividades de
dança. Ela argumentava com a turma o quanto soltar o corpo era bom e prazeroso e tinha
como resposta os olhares desconfiados de boa parte da turma. Quando se aproximou das
famílias, percebeu que a orientação religiosa da maioria das mães e pais pregava que a dança
era um ato pecaminoso. Assim, a professora percebeu que, ao insistir na atividade, gerava
um sério conflito moral em seus alunos.
Os exemplos acima sinalizam que uma compreensão mais apurada das condições de
vida e da cultura dos alunos pode gerar mudanças produtivas no planejamento pedagógico
e na relação professor-aluno. Este ponto merece especial atenção, pois, desde o fim dos
anos 1960, pesquisas já constatavam que as expectativas dos docentes funcionam como
uma profecia autorrealizadora para seus alunos.
A profecia autorrealizadora, também conhecida como efeito pigmaleão, foi fundamentada
por Rosenthal e Jacobson (1968)22. O estudo mostrou que os professores tendem a tratar
os alunos conforme expectativas prévias que terminam por influenciar o desempenho
efetivo dos estudantes. Por exemplo, um professor classifica um aluno como desatento e
passa então a agir em relação a este aluno sempre segundo este pensamento. Com o
tempo, o aluno acaba se convencendo de que é mesmo desatento, intensificando
comportamentos nesse sentido.
Se a percepção de um professor sobre cada um de seus alunos é decisiva para a
promoção de uma boa relação escola-aluno, um diagnóstico baseado em suposições e não
em evidências sobre os fatores que estão interferindo nos problemas de aprendizagem
pode gerar intervenções pedagógicas pouco eficazes e com resultados possivelmente
desastrosos. Além disso, os julgamentos escolares costumam influenciar a expectativa das
famílias – o que, por sua vez, impacta consideravelmente as chances de uma criança,
 O círculo vicioso se quebra quando “a
escola abraça até o mau aluno”, como disse uma coordenadora pedagógica entrevistada.
A interação com as famílias nos moldes como estamos concebendo aqui é recente na
história da educação brasileira, por isso ela requer mudanças de mentalidade de todos os
envolvidos. Segundo várias pesquisas, as escolas frequentemente representam as famílias
como uma extensão de si mesmas, sem perceber as diferenças de lógica de um espaço a
outro. Esse traço, de colocar a lógica da instituição escolar no centro do diálogo, é chamado
escolacentrismo23 e costuma impedir que os agentes escolares escutem e compreendam
o ponto de vista das famílias.
O estudo Participación de las familias en la educación infantil latinoamericana24 destaca
alguns fatores que costumam inibir uma boa interação com algumas famílias. Todos esses
fatores podem, de alguma forma, ser relacionados com a ideia de “escolacentrismo”:
• Os professores sentem-se incomodados quando os pais opinam na área que julgam
de sua competência exclusiva. Não veem importância ou não acreditam que as
famílias possam participar dessa relação de contornos mais pedagógicos.
• Educadores culpam a família pelas dificuldades apresentadas pelos alunos e alunas.
É comum ouvir: a mãe não se preocupa, abandona o filho, não estabelece limites
em casa.
• Professores criticam os pais (principalmente as mães) por não ajudarem no dever
e nos pedidos da escola, ignorando as mudanças do papel da mulher na sociedade.
Assim, o aluno que se apresenta sem o apoio do adulto é desprestigiado em sala de
aula e tende a piorar seu rendimento.
• Gestores e docentes desqualificam aspectos da cultura familiar sem sequer
conhecer o sentido das práticas, o espaço e a rotina familiar.
• A escola persiste com atividades dirigidas a modelos de famílias tradicionais, apesar
das mudanças na sociedade25.
• A escola mantém a mesma rotina de reuniões, oficinas, palestras e atividades, sem
consultar os pais sobre temas de seu interesse, necessidade e horários adequados.
Observo, na realidade das escolas, que a subjetividade dos atores escolares deve ser levada em consideração, pois o aluno, antes de chegar a escola já era um sujeito social com seus construtos particulares.


Fonte: file:///C:/Users/Public/Pictures/escola_familia_final.pdf

Nenhum comentário:

Postar um comentário